Notícia
Um chamado à transformação do olhar
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” A partir da epígrafe do renomado romance “Ensaio Sobre a Cegueira”, do escritor português José Saramago, lançado em 1995, o público do Festival Internacional de Londrina é convidado a imergir nessa grande metáfora sobre a fragilidade da civilização e a perda da humanidade em situações extremas no espetáculo “(Um) Ensaio Sobre a Cegueira”, do Grupo Galpão (MG).
Com direção de Rodrigo Portella, a montagem abriu o FILO na sexta-feira, no Cine Teatro Ouro Verde, com reapresentação neste domingo, às 20 horas. Os ingressos estão esgotados, mas haverá fila de espera, conforme disponibilidade de entradas. A peça, que estreou no ano passado, já conquistou o Prêmio Shell (Melhor Direção) e o Prêmio APCA (Melhor Espetáculo).
Com quase 45 anos de trajetória, o Grupo Galpão é referência nacional de teatro, com um vasto repertório de sucesso. “Fazer teatro é um ato de resistência, de fé, de responsabilidade social. É promover a arte do encontro; contar com o coletivo para que a arte aconteça”, afirma o ator Paulo André, que também atua como assistente de direção na montagem.

Depois de mais de dez anos sem vir a Londrina, Paulo André ficou encantado com a reforma do Cine Teatro Ouro Verde. “Somos da época da Nitis Jacon e é uma alegria estarmos aqui de novo. Os festivais são fundamentais para o desenvolvimento da cultura como fomento, formação de público e troca de informações. Desejamos vida longa ao Filo”, destaca.
Ao tomar conhecimento do feriado municipal, na última sexta-feira, abriu um largo sorriso e contou que também se sente protegido pelo padroeiro de Londrina: tem o Sagrado Coração de Jesus tatuado nas costas.
Sobre o espetáculo – Em uma grande distopia quase apocalíptica, em que as pessoas começam a ficar cegas diante da realidade, os atores encenam no palco nu, com poucos adereços cênicos, dentro do conceito de teatro épico. A fala e a imaginação ganham corpo na interação com o público, que atua ativamente imaginando as cenas conforme vão sendo apresentadas.
Com duas horas e meia de duração do espetáculo – sem intervalo –, o ator relata que o retorno do público tem sido muito positivo. “O público se entrega, fica imerso, e ninguém quer perder nenhuma das cenas que eles mesmos estão construindo na imaginação”, garante Paulo André. “É interessante ver isso acontecer quando cada vez mais parece que as pessoas não têm tempo para se concentrarem em uma única coisa”, acrescenta.

Ele também ressalta o trabalho primoroso de iluminação, de Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella, e de direção musical, trilha original e paisagem sonora de Federico Puppi, antigo parceiro de trabalho de Portella. “Os atores também executam músicas ao vivo e a música realmente ajuda a aguçar a percepção das pessoas”, comenta.
Sobre o primeiro trabalho de direção de Rodrigo Portella com o Grupo Galpão, Paulo André também elogiou: “Foi maravilhoso e nos tornamos amigos. Espero que venham novos projetos juntos”, almeja.
Teatro Experiência – Com o intuito de ampliar a vivência do público em relação à arte teatral, foram disponibilizados 14 ingressos para o “Teatro Experiência”, nos dois dias de apresentação. As pessoas que adquiriram esses ingressos devem chegar no teatro com meia hora de antecedência para serem orientadas sobre a participação delas no palco. “Como não há ensaio, trabalhamos com a ideia do teatro de improvisação. Fazemos uma rápida reunião, posicionamos cada participante, sendo que alguns são vendados”, adianta.
O FILO 2026 é uma produção da Usina Cultural de Londrina, com patrocínio master da Petrobras, por meio da Lei Rouanet, do Ministério da Cultura do Governo Federal; Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, e da Prefeitura de Londrina – Secretaria Municipal da Cultura – Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), com a chancela do Paraná Festivais.